amor-Freud: a nomear a errar a insistir

Freud chamou de amor de transferência o laço estabelecido no trabalho de análise. A esse amor ele adjetivou: “verdadeiro amor”. Distinguir o verdadeiro no amor explicita a face de encobrimento e de engano das relações amorosas.  Nessa direção, a transferência atualiza o amor como o paradoxo da mentira verdadeira, que comporta a promessa de ligação a um objeto visado e, todavia, impossível. “Só os deuses podem prometer, porque são imortais”, nos lembra Jorge Luis Borges, o que se constata no que o endereçamento ao analista pressupõe.

Lacan situa na transferência a relação com o saber, acrescentando que amamos aquele a quem supomos um saber. É a partir dessa formulação que nomeia o amor de transferência como um sujeito suposto ao saber. Por isso, o trabalho de análise percorre as vias de um esvaziamento das figuras da promessa franqueando a sustentação da inexistência do objeto ao delimitar, pelo ato, as bordas de seu vazio.

O encontro do Outrarte tem como tema para 2026 “amor-Freud: a nomear a errar a insistir”. Este tema opera um deslocamento do amor na relação ao saber. “amor-Freud” aponta para o “acontecimento-Freud”: o sulco no real que sua descoberta traça, isso que se busca nomear. Lacan o abordou inicialmente pela via de um  retorno. Um retorno singular que ao incursionar pelos fundamentos da linguagem, decanta a subversão freudiana para dela recolher o lastro.

Todo retorno que não pretende restaurar um passado deixa um lastro. É dele que uma experiência continua a fazer viagem.

Lastro é o peso que permite ao navio manter seu percurso. É também a reserva que garante valor à moeda corrente. Lastro seria aquilo que a experiência analítica produz como possibilidade de transmissão de um saber-fazer com a perda. Prescindir do que já nasceu perdido.

Se um retorno a Freud apontou algo originário; amor-Freud, em 2026, abre ao porvir, justamente quando futuro e amor estão fora da cena atual.   O lastro que se desloca na trilha a nomear a errar a insistir fura a continuidade entre o “retorno a” e “ao porvir”, escreve um vazio intervalar, convocando respostas singulares.

 

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